Resistência em terapia: o que significa e como lidar
A palavra “resistência” pode soar negativa à primeira vista, como se implicasse um obstáculo, um problema a ser combatido. No entanto, no contexto da psicoterapia — especialmente na psicodinâmica —, resistência é um fenômeno natural, revelador e clínico. Ela nos conta algo essencial sobre o funcionamento psíquico do paciente e deve ser escutada com atenção, sensibilidade e técnica.
O que é resistência na terapia?
No campo psicodinâmico, o termo resistência designa todas as atitudes, pensamentos ou comportamentos — muitas vezes inconscientes — que dificultam o acesso a conteúdos internos significativos, geralmente porque esses conteúdos estão associados a angústia, dor, culpa, vergonha ou medo. Freud (1914) já observava que o inconsciente “resiste” a tornar-se consciente, especialmente quando isso implica contato com experiências ou desejos que causam sofrimento.
Essa resistência pode ocorrer de várias formas: o paciente se esquece de sessões, chega atrasado, muda de assunto quando certos temas são abordados, racionaliza demais os sentimentos ou até mesmo se mostra excessivamente complacente com o terapeuta — tudo isso pode ser resistência.
De acordo com Gabbard (2015), a resistência deve ser compreendida como um mecanismo de defesa do ego diante da ameaça representada por conteúdos inconscientes. Ela não é um inimigo da terapia, mas uma parte do processo. Reconhecê-la é fundamental para que o trabalho clínico possa avançar com profundidade e segurança.
“A resistência é um indicador de que o tratamento está tocando em áreas sensíveis da psique. Interpretá-la corretamente pode abrir caminhos importantes para a mudança”
(Gabbard, 2015).
Por que ela acontece?
A resistência ocorre quando há ambivalência interna: por um lado, o paciente deseja melhorar, compreender-se e sofrer menos. Por outro, esse desejo esbarra em defesas estabelecidas ao longo da vida que garantiram, de certo modo, sua sobrevivência psíquica até aquele momento.
Essa ambivalência se manifesta especialmente quando a terapia começa a tocar zonas emocionais vulneráveis ou traumáticas, o que pode gerar medo de perder o controle, de ser invadido, rejeitado ou abandonado. Em terapias de orientação psicodinâmica, que priorizam o acesso ao inconsciente, esse processo é comum — e esperado.
Abrahams e Rohleder (2021) ressaltam que a resistência está profundamente ligada à transferência: o modo como o paciente “traz” ao terapeuta sentimentos e expectativas inconscientes moldadas por relações significativas do passado. A forma como resiste pode ser, portanto, uma repetição de padrões afetivos antigos.
“O paciente pode resistir à terapia da mesma forma que resistiu, em sua história, a um vínculo com figuras parentais negligentes, intrusivas ou ausentes. A resistência, nesse sentido, é uma comunicação”
(Abrahams; Rohleder, 2021).
Como a resistência se manifesta?
As formas de resistência variam de acordo com a estrutura psíquica do paciente, o vínculo terapêutico e o momento do processo. Alguns exemplos clínicos incluem:
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Atrasos e faltas recorrentes, especialmente quando o conteúdo das últimas sessões foi mais intenso.
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Silêncios prolongados, não como espaço de elaboração, mas como evasão.
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Racionalizações: o paciente analisa intelectualmente seus sentimentos sem acessá-los emocionalmente.
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Mudanças abruptas de assunto, especialmente quando sentimentos como tristeza, raiva ou desejo começam a emergir.
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Atitudes de confronto ou sedução, que podem funcionar como defesas contra a dependência do terapeuta.
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Desvalorização da terapia (“isso não está me ajudando”) logo após insights importantes.
Em casos mais sutis, o paciente pode parecer “colaborativo demais”, com discursos idealizados sobre o terapeuta ou o processo, o que pode ocultar uma dificuldade em expressar dúvidas, críticas ou frustrações.
Angela Molnos (1995), ao estudar psicoterapias breves, destaca que a resistência pode ser intensificada pela percepção do tempo limitado, pois ativa defesas ligadas ao medo da separação, perda ou frustração. Assim, ela propõe que o terapeuta esteja atento à forma como o tempo impacta as defesas do paciente.
Como o terapeuta pode lidar com a resistência?
O manejo técnico da resistência exige empatia, paciência e afinação clínica. Confrontar diretamente a resistência, sem compreensão do que ela representa, pode reforçá-la. O terapeuta precisa escutar o que está por trás do comportamento resistente, reconhecendo-o como uma defesa legítima da psique.
Entre as principais estratégias clínicas, podemos destacar:
1. Nomear e validar a resistência com cuidado
Exemplo: “Percebo que, nas últimas sessões, tem sido difícil falar sobre sua relação com seu pai. Talvez exista algo doloroso aí que ainda está difícil de acessar. Podemos pensar juntos sobre isso?”
2. Explorar o que está sendo defendido
Toda resistência protege algo. O terapeuta deve buscar, junto ao paciente, o que está sendo evitado — sem invadir ou pressionar.
3. Relacionar a resistência à transferência
Exemplo: “Será que essa sensação de que posso te julgar se falar sobre isso lembra alguma outra relação importante na sua vida?”
4. Trabalhar com a aliança terapêutica
A confiança é essencial. Mostrar que o terapeuta está disponível, atento e sem julgamento ajuda a diminuir o medo do contato com conteúdos difíceis.
5. Aceitar o tempo do paciente
Pressionar para “avançar” pode ser contraproducente. Como afirma Cabaniss et al. (2016), o progresso muitas vezes se dá na escuta respeitosa da estagnação aparente.
“A resistência pode ser a forma que o paciente encontra de dizer: ‘ainda não estou pronto para ir até aí’. O terapeuta que respeita esse limite fortalece a aliança terapêutica”
(Cabaniss et al., 2016).
Resistência é sinal de fracasso?
Muito pelo contrário. Resistência é sinal de que a terapia está funcionando. Ela indica que o trabalho está tocando áreas sensíveis, que merecem ser exploradas com delicadeza. Quando bem manejada, a resistência pode abrir portas importantes para o insight e a transformação.
Como sintetiza Gertrud Mander (2000), o trabalho com a resistência é, muitas vezes, o próprio núcleo da mudança terapêutica. Ignorá-la, minimizá-la ou tentar forçá-la a desaparecer rapidamente pode resultar em retraumatização, acting out ou ruptura do processo.
Conclusão
A resistência em terapia não deve ser temida nem combatida, mas escutada. Ela é expressão da luta interna do paciente, do seu desejo e, ao mesmo tempo, medo de mudar. Ao acolher a resistência, o terapeuta valida a dor e as defesas do paciente, promovendo um ambiente seguro para que novas formas de viver e se relacionar possam emergir.
Referências Bibliográficas
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ABRAHAMS, D.; ROHLEDER, P. A clinical guide to psychodynamic psychotherapy. London: Routledge, 2021.
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CABANISS, D. L. et al. Psychodynamic psychotherapy: a clinical manual. 2. ed. Arlington: American Psychiatric Publishing, 2016.
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GABBARD, G. O. Psiquiatria psicodinâmica na prática clínica. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015.
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MANDER, G. A psychodynamic approach to brief therapy. London: Sage, 2000.
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MOLNOS, A. A question of time: essentials of brief dynamic psychotherapy. London: Karnac Books, 1995.
Se você está buscando psicoterapia presencial em Criciúma/SC, ou online em qualquer lugar do Brasil (ou do mundo), entenda como essa abordagem pode ajudar você a lidar com angústias, sintomas emocionais e dificuldades nos relacionamentos de forma profunda e duradoura.
O que é Psicoterapia Psicodinâmica?
A psicoterapia psicodinâmica é uma forma de tratamento psicológico que parte da ideia de que:
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muitos dos nossos pensamentos, emoções e comportamentos conscientes
são influenciados por processos inconscientes; -
esses processos têm relação com a forma como fomos cuidados, com nossas
primeiras relações afetivas, experiências de apego, perdas, traumas e conflitos ao longo da vida.
Em vez de focar apenas em “corrigir” comportamentos ou em técnicas rápidas para aliviar sintomas, a psicoterapia psicodinâmica busca:
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compreender por que você sente e reage como sente;
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investigar a história emocional por trás dos seus sintomas;
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ligar o que você vive hoje a padrões que se repetem em sua vida e em seus relacionamentos.
O objetivo não é apenas “entender com a cabeça”, mas favorecer um insight que seja emocionalmente significativo — um tipo de autoconhecimento que, aos poucos, muda a forma como você se percebe, se sente e se relaciona.
Como funciona na prática?
Na prática, a psicoterapia psicodinâmica acontece por meio de sessões semanais, em um ambiente de escuta protegida, ética e sigilosa.
Durante o processo, o psicólogo psicodinâmico:
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oferece uma escuta qualificada e sem julgamentos;
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ajuda a nomear emoções difíceis de acessar sozinho;
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observa padrões que se repetem nas suas falas, nas suas relações e até na própria relação terapêutica;
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convida você a refletir sobre experiências passadas e atuais, conectando-as aos sintomas e conflitos de hoje.
Ao longo das sessões, o trabalho clínico costuma envolver:
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Identificar padrões emocionais repetitivos: Por exemplo: sempre se sentir “em segundo plano” nas relações, sempre assumir o papel de cuidador, evitar conflitos a qualquer custo.
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Compreender conflitos internos: Partes suas que desejam coisas diferentes e entram em choque: “quero me aproximar, mas tenho medo de me machucar”.
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Explorar sentimentos muitas vezes inconscientes: Como raiva, vergonha, inveja, culpa ou tristeza profunda, que podem aparecer disfarçados em sintomas (ansiedade, irritação, desânimo, dificuldade de se desligar do trabalho, etc.)
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Refletir sobre as relações: Amorosas, familiares, sociais e profissionais, entendendo por que certas dinâmicas se repetem.
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Construir um sentido mais coerente sobre si mesmo: Integrando diferentes partes da sua história e da sua personalidade.
É um processo que não é “mágico” nem instantâneo, mas que busca uma mudança mais profunda e estável ao longo do tempo.
Para quem é indicada?
A psicoterapia psicodinâmica pode ser indicada para qualquer pessoa que queira entender melhor sua vida emocional e seus relacionamentos.
Ela costuma ser especialmente útil para quem vive:
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Ansiedade, angústia e crises emocionais
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Depressão, desânimo persistente ou sensação de esvaziamento
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Dificuldades e problemas nos relacionamentos amorosos, familiares ou sociais
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Baixa autoestima e sentimento de não ser “bom o suficiente”
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Questões de identidade e sexualidade
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Lutos e perdas não elaboradas
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Conflitos recorrentes no trabalho, autossabotagem ou perfeccionismo extremo
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Transtornos de personalidade e dificuldades mais complexas na forma de se relacionar consigo e com os outros
Também pode ser um espaço importante para quem não tem um “sintoma” claro, mas sente uma insatisfação difusa, uma sensação de estar desconectado de si mesmo ou repetindo histórias que não gostaria mais de viver.
Quais os benefícios?
Entre os principais benefícios relatados por pacientes em psicoterapia psicodinâmica, estão:
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Autoconhecimento profundo
Entender melhor quem você é, como se construiu emocionalmente e por que certas situações tocam pontos tão sensíveis. -
Melhora nas relações interpessoais
Ao reconhecer seus padrões de vínculo, você pode se posicionar de forma mais clara, escolher melhor suas relações e se proteger de dinâmicas que fazem sofrer. -
Maior capacidade de lidar com emoções
Em vez de sentir que as emoções “tomam conta” de você, torna-se possível reconhecê-las, nomeá-las e encontrar formas mais saudáveis de lidar com elas. -
Mudança de padrões repetitivos de sofrimento
A ideia não é apenas “aprender truques”, mas transformar, na medida do possível, aquilo que se repete sem que você perceba. -
Fortalecimento da autoestima e da autonomia emocional
Ao se entender melhor, você passa a se tratar com menos crítica e mais cuidado, o que impacta decisões, relacionamentos e escolhas de vida.
Diferente de terapias que se concentram apenas no “aqui e agora”, a psicodinâmica reconhece que o presente é atravessado pela nossa história. Compreender essas raízes não significa “culpar o passado”, mas usar essa compreensão como base para construir algo novo.
Gustavo Roedel – Especialista em Psicologia Clínica Psicodinâmica

Se você busca um psicólogo com abordagem psicodinâmica, deixe me apresentar. Sou Gustavo Roedel, psicólogo (CRP 12/26228), e ofereço um espaço de escuta sensível, ética e fundamentada em anos de formação e experiência clínica.
Atuo com adolescentes, adultos idosos e casais, sempre respeitando a singularidade de cada história. Meu trabalho se baseia na escuta psicodinâmica, considerando não apenas os sintomas, mas o sentido que eles têm na vida de cada paciente.