Gustavo Roedel – Psicoterapia Presencial e Online – Criciúma SC

Relações objetais: o que são e como nos moldam?

Uma introdução psicodinâmica acessível

Você já percebeu que, mesmo mudando de cidade, emprego ou relacionamento, certos sentimentos parecem sempre se repetir?
Como se você carregasse, por dentro, as mesmas histórias – apenas com novos personagens?

Na psicologia psicodinâmica, uma parte importante disso é explicada pelas relações objetais: os modelos internos que vamos construindo sobre nós mesmos e sobre as pessoas significativas ao longo da vida. Esses modelos seguem ativos, influenciando nossa autoestima, nossos vínculos e até nossos sintomas emocionais (Gabbard, 2014; Polnay et al., 2023).

Este texto é um convite, em linguagem acessível, para entender o que são relações objetais e como elas nos moldam – tema central na psicodinâmica, na teoria das relações objetais e na psicoterapia psicodinâmica.

O que são relações objetais?

Na teoria psicodinâmica, “objeto” não quer dizer coisa, mas pessoas importantes (ou partes delas) com as quais nos relacionamos – mãe, pai, cuidadores, irmãos, parceiros, professores, figuras de autoridade etc.

Ao longo do desenvolvimento, não guardamos apenas lembranças isoladas dessas pessoas, mas vamos construindo representações internas:

  • de como o outro é (“cuidador”, “indiferente”, “crítico”, “instável”);

  • de como nós somos aos olhos desse outro (“amável”, “um peso”, “sempre errado”, “responsável por tudo”);

  • de como os vínculos costumam funcionar (“se eu precisar, vou ser abandonado”, “se eu mostrar fragilidade, serei atacado”, “se eu cuidar de todos, talvez me amem”).

Essas representações, somadas, formam o que chamamos de relações objetais internas ou objetos internos: modos relativamente estáveis de sentir, imaginar e esperar algo de si e dos outros.

Autores da tradição das relações objetais – como Melanie Klein, Winnicott, Fairbairn, Kernberg – desenvolveram justamente a ideia de que o foco não é só em “impulsos” ou “instintos”, mas na forma como as experiências com pessoas reais são internalizadas e depois se reeditam na vida psíquica e nos relacionamentos atuais (Gabbard, 2014; Polnay et al., 2023).

Como as relações objetais se formam ao longo da vida?

As relações objetais começam a se formar muito cedo, nos primeiros vínculos com quem cuida de nós. Não se trata de uma fotografia fiel da realidade, mas de como o bebê e a criança vivem emocionalmente essas experiências.

Alguns pontos importantes:

  • Repetição de experiências
    Quando uma criança é, repetidas vezes, acolhida em sua dor, ela tende a construir um objeto interno de “outro que cuida” e um senso de si como “alguém que pode ser cuidado”.
    Quando é repetidamente ignorada, criticada ou ridicularizada, pode formar a expectativa interna de que “no fundo, as pessoas me machucam” ou “se eu mostrar quem sou, serei rejeitado”.

  • Mistura entre realidade externa e fantasia interna
    Mesmo cuidadores amorosos podem ser vividos, em certos momentos, como “terríveis” ou “perseguidores”, especialmente em estados de muita angústia. Klein descreve como, no início da vida, o bebê tende a “dividir” o objeto em bom e mau, até conseguir integrar essas imagens ao longo do desenvolvimento.

  • Influência do contexto social e cultural
    Obras contemporâneas em psicodinâmica, como Inside Out and Outside In, lembram que essas relações objetais também são marcadas por gênero, raça, classe, cultura e outras dimensões sociais que atravessam a experiência de ser cuidado e reconhecido (Berzoff, Flanagan & Hertz, 2008/2011).

Ao longo da vida, essas matrizes iniciais podem se transformar – mas tendem a funcionar como um “pano de fundo” sobre o qual interpretamos novas experiências.

Como as relações objetais nos moldam no dia a dia?

As relações objetais não ficam apenas na teoria. Elas aparecem, o tempo todo, no cotidiano.

1. Na forma como nos vemos

Se, internamente, predomina uma relação objetal em que o self é visto como “insuficiente” diante de um “outro crítico”, é comum que a pessoa:

  • seja muito dura consigo mesma;

  • desqualifique elogios;

  • tenha dificuldade em reconhecer qualidades.

Já se a experiência interna predominante é de um “outro disponível” e de um “self digno de cuidado”, é mais provável que haja:

  • maior capacidade de pedir ajuda;

  • sensação de ter valor, mesmo em momentos de falha;

  • flexibilidade para aprender com erros sem se destruir.

2. Nos relacionamentos amorosos, familiares e de trabalho

As relações objetais influenciam:

  • quem escolhemos (ou por quem nos sentimos atraídos);

  • como interpretamos o comportamento do outro;

  • como reagimos em situações de proximidade, conflito, frustração.

Por exemplo:

  • alguém com história de vínculos muito instáveis pode esperar, mesmo sem perceber, que qualquer aproximação termine em abandono – e reagir com ciúme, controle ou afastamento precoce;

  • quem cresceu em ambiente de crítica constante pode ouvir, numa sugestão neutra do parceiro ou do chefe, uma acusação devastadora.

Do ponto de vista das relações objetais, não estamos reagindo apenas ao que o outro faz agora, mas também ao “elenco interno” que carregamos: velhas cenas, com velhos papéis, reeditadas em novos cenários (Gabbard, 2014; Polnay et al., 2023).

3. Nos sintomas e na organização da personalidade

Autoras e autores contemporâneos mostram como diferentes organizações de personalidade podem ser compreendidas a partir do padrão predominante de relações objetais:

  • Em funcionamentos mais integrados (nevróticos), costuma haver maior capacidade de ver a si e ao outro de forma complexa: alguém pode magoar e também cuidar, ser falho e ainda assim importante.

  • Em funcionamentos mais frágeis (por exemplo, certos quadros borderline ou narcisistas), pode predominar uma vivência de objetos “cindidos” (totalmente bons ou totalmente maus), com muita oscilação na visão de si e dos outros, dificultando relações estáveis (Gabbard, 2014; Kealy & Ogrodniczuk, 2019; Polnay, 2023).

Nessa perspectiva, entender relações objetais não é rotular pessoas, mas compreender modos de organização da experiência que podem gerar sofrimento – e que também revelam recursos e possibilidades de mudança.

Relações objetais na psicoterapia psicodinâmica

Na psicoterapia psicodinâmica, as relações objetais são trabalhadas em dois níveis:

  1. Na história que o paciente conta
    O terapeuta escuta como o paciente descreve:

    • seus pais e cuidadores;

    • relações passadas e presentes;

    • a forma como se percebe nessas relações.

    Ele presta atenção em temas que se repetem: “sou sempre deixado de lado”, “ninguém me entende”, “eu acabo cuidando de todo mundo”, “se eu precisar de alguém, vou ser um peso”.

  2. Na relação terapêutica aqui e agora
    Com o tempo, esses modelos internos aparecem também na forma como o paciente vive o vínculo com o terapeuta: expectativas de abandono, medos de julgamento, idealizações, desconfiança, necessidade de cuidar do outro, entre outros.

    Textos atuais em psicodinâmica descrevem como um dos objetivos centrais da terapia é ligar as relações objetais internas com as relações externas atuais, inclusive com o terapeuta (Summers & Barber, 2009; Polnay, 2023).

Ao interpretar e explorar esses movimentos, o terapeuta ajuda o paciente a:

  • reconhecer seus padrões de relações objetais;

  • entender de onde eles vêm;

  • experimentar formas novas de se vincular – menos baseadas em roteiros antigos, mais abertas ao que está realmente acontecendo na relação.

Obras como Inside Out and Outside In e Contemporary Psychodynamic Psychotherapy destacam que esse trabalho precisa considerar também o contexto sociocultural: não é só “psíquico”, mas atravessado por desigualdades, preconceitos e experiências de exclusão ou privilégio que marcam profundamente os objetos internos de cada pessoa (Berzoff, Flanagan & Hertz, 2008/2011; Kealy & Ogrodniczuk, 2019).

Quando faz sentido buscar psicoterapia psicodinâmica?

Faz sentido pensar em psicoterapia psicodinâmica quando você percebe, por exemplo:

  • repetição de padrões de relacionamento que te fazem sofrer;

  • sensação de sempre ocupar o mesmo lugar nas relações (o que cuida, o rejeitado, o invisível, o “forte que não pode fraquejar”, etc.);

  • autoestima muito abalada por experiências com figuras importantes;

  • um conflito entre o que você racionalmente sabe e o que emocionalmente sente;

  • curiosidade genuína em entender como sua história interna molda sua forma de amar, trabalhar, se proteger e se colocar no mundo.

O trabalho com relações objetais não é sobre “culpar o passado”, e sim sobre ganhar mais liberdade em relação a ele.
Ao reconhecer os roteiros internos que se repetem, você pode, pouco a pouco, experimentar novos modos de se perceber e se relacionar.

Se você está em Porto Alegre ou busca psicoterapia psicodinâmica online, esse tipo de abordagem pode ser especialmente interessante se o que você procura é um espaço de autoconhecimento profundo e transformação da vida emocional, e não apenas alívio imediato de sintomas.

Referências Bibliográficas

  • ABRAHAMS, Deborah; ROHLEDER, Poul. A clinical guide to psychodynamic psychotherapy. Abingdon; New York: Routledge, 2021. Cambridge University Press & Assessment

  • BERZOFF, Joan; FLANAGAN, Laura Melano; HERTZ, Patricia. Inside out and outside in: psychodynamic clinical theory and psychopathology in contemporary multicultural contexts. Lanham: Jason Aronson, 2008. Internet Archive+1

  • CABANISS, Deborah L.; CHERRY, Sabrina; DOUGLAS, Carolyn J.; SCHWARTZ, Anna R. Psychodynamic psychotherapy: a clinical manual. 2. ed. Hoboken: John Wiley & Sons, 2016. ScienceDirect

  • GABBARD, Glen O. Psychodynamic psychiatry in clinical practice. 5. ed. Washington, DC: American Psychiatric Publishing, 2014. Dokumen+2Google Livros+2

  • KEALY, David; OGRODNICZUK, John S. (org.). Contemporary psychodynamic psychotherapy: evolving clinical practice. San Diego: Academic Press, 2019. ResearchGate+1

  • POLNAY, Adam et al. Cambridge guide to psychodynamic psychotherapy. Cambridge: Cambridge University Press, 2023. Cambridge University Press & Assessment+3Cambridge Assets+3books.google.es+3

  • SUMMERS, Richard F.; BARBER, Jacques P. Psychodynamic therapy: a guide to evidence-based practice. New York: Guilford Press, 2009. ScienceDirect

Se você está buscando psicoterapia presencial em Criciúma/SC, ou online em qualquer lugar do Brasil (ou do mundo), entenda como essa abordagem pode ajudar você a lidar com angústias, sintomas emocionais e dificuldades nos relacionamentos de forma profunda e duradoura.

O que é Psicoterapia Psicodinâmica?

A psicoterapia psicodinâmica é uma forma de tratamento psicológico que parte da ideia de que:

  • muitos dos nossos pensamentos, emoções e comportamentos conscientes
    são influenciados por processos inconscientes;

  • esses processos têm relação com a forma como fomos cuidados, com nossas
    primeiras relações afetivas, experiências de apego, perdas, traumas e conflitos ao longo da vida.

Em vez de focar apenas em “corrigir” comportamentos ou em técnicas rápidas para aliviar sintomas, a psicoterapia psicodinâmica busca:

  • compreender por que você sente e reage como sente;

  • investigar a história emocional por trás dos seus sintomas;

  • ligar o que você vive hoje a padrões que se repetem em sua vida e em seus relacionamentos.

O objetivo não é apenas “entender com a cabeça”, mas favorecer um insight que seja emocionalmente significativo — um tipo de autoconhecimento que, aos poucos, muda a forma como você se percebe, se sente e se relaciona.

Como funciona na prática?

Na prática, a psicoterapia psicodinâmica acontece por meio de sessões semanais, em um ambiente de escuta protegida, ética e sigilosa.

Durante o processo, o psicólogo psicodinâmico:

  • oferece uma escuta qualificada e sem julgamentos;

  • ajuda a nomear emoções difíceis de acessar sozinho;

  • observa padrões que se repetem nas suas falas, nas suas relações e até na própria relação terapêutica;

  • convida você a refletir sobre experiências passadas e atuais, conectando-as aos sintomas e conflitos de hoje.

Ao longo das sessões, o trabalho clínico costuma envolver:

  • Identificar padrões emocionais repetitivos: Por exemplo: sempre se sentir “em segundo plano” nas relações, sempre assumir o papel de cuidador, evitar conflitos a qualquer custo.

  • Compreender conflitos internos: Partes suas que desejam coisas diferentes e entram em choque: “quero me aproximar, mas tenho medo de me machucar”.

  • Explorar sentimentos muitas vezes inconscientes: Como raiva, vergonha, inveja, culpa ou tristeza profunda, que podem aparecer disfarçados em sintomas (ansiedade, irritação, desânimo, dificuldade de se desligar do trabalho, etc.)

  • Refletir sobre as relações: Amorosas, familiares, sociais e profissionais, entendendo por que certas dinâmicas se repetem.

  • Construir um sentido mais coerente sobre si mesmo: Integrando diferentes partes da sua história e da sua personalidade.

É um processo que não é “mágico” nem instantâneo, mas que busca uma mudança mais profunda e estável ao longo do tempo.

Para quem é indicada?

A psicoterapia psicodinâmica pode ser indicada para qualquer pessoa que queira entender melhor sua vida emocional e seus relacionamentos.

Ela costuma ser especialmente útil para quem vive:

  • Ansiedade, angústia e crises emocionais

  • Depressão, desânimo persistente ou sensação de esvaziamento

  • Dificuldades e problemas nos relacionamentos amorosos, familiares ou sociais

  • Baixa autoestima e sentimento de não ser “bom o suficiente”

  • Questões de identidade e sexualidade

  • Lutos e perdas não elaboradas

  • Conflitos recorrentes no trabalho, autossabotagem ou perfeccionismo extremo

  • Transtornos de personalidade e dificuldades mais complexas na forma de se relacionar consigo e com os outros

Também pode ser um espaço importante para quem não tem um “sintoma” claro, mas sente uma insatisfação difusa, uma sensação de estar desconectado de si mesmo ou repetindo histórias que não gostaria mais de viver.

Quais os benefícios?

Entre os principais benefícios relatados por pacientes em psicoterapia psicodinâmica, estão:

  • Autoconhecimento profundo
    Entender melhor quem você é, como se construiu emocionalmente e por que certas situações tocam pontos tão sensíveis.

  • Melhora nas relações interpessoais
    Ao reconhecer seus padrões de vínculo, você pode se posicionar de forma mais clara, escolher melhor suas relações e se proteger de dinâmicas que fazem sofrer.

  • Maior capacidade de lidar com emoções
    Em vez de sentir que as emoções “tomam conta” de você, torna-se possível reconhecê-las, nomeá-las e encontrar formas mais saudáveis de lidar com elas.

  • Mudança de padrões repetitivos de sofrimento
    A ideia não é apenas “aprender truques”, mas transformar, na medida do possível, aquilo que se repete sem que você perceba.

  • Fortalecimento da autoestima e da autonomia emocional
    Ao se entender melhor, você passa a se tratar com menos crítica e mais cuidado, o que impacta decisões, relacionamentos e escolhas de vida.

Diferente de terapias que se concentram apenas no “aqui e agora”, a psicodinâmica reconhece que o presente é atravessado pela nossa história. Compreender essas raízes não significa “culpar o passado”, mas usar essa compreensão como base para construir algo novo.

Gustavo Roedel – Especialista em Psicologia Clínica Psicodinâmica

Foto de Gustavo Roedel. Psicólogo Clínico e Neuropsicólogo em Criciúma/SC. Atendimento Presencial e Online

Se você busca um psicólogo com abordagem psicodinâmica, deixe me apresentar. Sou Gustavo Roedel, psicólogo (CRP 12/26228), e ofereço um espaço de escuta sensível, ética e fundamentada em anos de formação e experiência clínica.

Atuo com adolescentes, adultos idosos e casais, sempre respeitando a singularidade de cada história. Meu trabalho se baseia na escuta psicodinâmica, considerando não apenas os sintomas, mas o sentido que eles têm na vida de cada paciente.