O inconsciente no cotidiano
O que é o inconsciente na perspectiva psicodinâmica?
Na psicodinâmica, o inconsciente não é um “lugar secreto” da mente, mas um conjunto de processos mentais que atuam fora da consciência e influenciam diretamente o que sentimos, pensamos e fazemos no dia a dia. Esses processos se organizam a partir de experiências precoces, vínculos afetivos, traumas, fantasias e modos habituais de lidar com o sofrimento (Jarvis, 2003; Gabbard, 2014).
Matt Jarvis descreve a psicologia psicodinâmica como um campo que busca compreender justamente essa “vida mental profunda”, que inclui desejos, conflitos, defesas e padrões relacionais que nem sempre estão disponíveis à consciência, mas estruturam nossa experiência (Jarvis, 2003).
Glen Gabbard, por sua vez, enfatiza que grande parte da clínica psicodinâmica se apoia na ideia de que sintomas, escolhas e relações repetitivas expressam conflitos inconscientes e modos de funcionamento psíquico que o sujeito não escolhe deliberadamente, mas que podem ser compreendidos e transformados em tratamento. (Gabbard, 2014).
Em síntese, quando falamos em inconsciente na psicodinâmica, estamos falando de:
-
Conteúdos (lembranças, fantasias, desejos, afetos) que não estão facilmente acessíveis;
-
Processos (mecanismos de defesa, padrões de relação, formas de perceber a si e aos outros) que operam de modo automático;
-
Conflitos entre diferentes partes do self, que podem gerar sintomas, angústia e repetição de situações de sofrimento.
Como o inconsciente aparece no cotidiano?
Os autores contemporâneos em psicoterapia psicodinâmica destacam que o inconsciente se manifesta de formas sutis, mas constantes, na vida diária – não apenas em sonhos ou “casos-limite”, mas em situações comuns do trabalho, da família e dos relacionamentos amorosos (Summers; Barber, 2009; Kealy; Ogrodniczuk, 2019).
Alguns exemplos importantes:
2.1. Reações “desproporcionais”
Quando reagimos com muita intensidade a algo aparentemente pequeno (como uma crítica no trabalho, um atraso do parceiro, ou mesmo um convite recusado), muitas vezes essa emoção está conectada a experiências anteriores significativas (por exemplo, vivências de desvalorização, abandono ou humilhação).
Do ponto de vista psicodinâmico, a situação atual “acorda” um núcleo inconsciente de memória afetiva, e a resposta vem carregada de sentidos que não se limitam ao aqui-e-agora (Gabbard, 2014).
2.2. Padrões que se repetem
Outro modo central de manifestação do inconsciente é a repetição:
-
pessoas que “sempre” acabam em relações abusivas;
-
profissionais que recorrentemente se colocam em posições de sobrecarga;
-
indivíduos que oscilam entre idealização e decepção extrema nas relações.
Summers e Barber descrevem esses ciclos como padrões repetitivos de relacionamento e de vivência emocional, que funcionam como “roteiros internos” inconscientes, derivados de vínculos importantes do passado e atualizados no presente (SUMMERS; BARBER, 2009).
2.3. Sintomas e sofrimento emocional
Ansiedade, depressão, somatizações e crises emocionais podem ser compreendidos não apenas como “doenças”, mas como formas de expressão de conflitos psíquicos e de dificuldades estruturais na organização do self (Polnay et al., 2023).
A psicodinâmica não nega causas biológicas ou sociais, mas busca entender o sentido subjetivo dos sintomas: por que esse sintoma, nesse momento, nessa história?
Mecanismos de defesa: como o inconsciente se protege
Para lidar com conflitos, dores e tensões internas, a mente lança mão de mecanismos de defesa, processos em grande parte inconscientes que visam proteger o sujeito de angústias intensas (Jarvis, 2003; Gabbard, 2014).
Alguns exemplos didáticos:
-
Negação: recusar-se a reconhecer algo doloroso (“não é tão grave assim”, “isso não está acontecendo comigo”).
-
Racionalização: explicar excessivamente com lógica algo que tem forte carga emocional, afastando-se do afeto.
-
Projeção: atribuir a outra pessoa um sentimento próprio (“ele que tem raiva de mim”, quando a raiva é interna).
-
Formação reativa: agir de forma oposta ao que se sente (“sou extremamente altruísta”, encobrindo agressividade ou inveja).
Gabbard sublinha que defesas não são “defeitos de caráter”, mas modos criativos (embora por vezes rígidos) de o psiquismo manter alguma coesão frente a tensões internas e externas. O problema surge quando essas defesas se tornam muito rígidas, afastando o sujeito de seus afetos e prejudicando relações e escolhas (Gabbard, 2014).
Vários autores propõem organizar os mecanismos de defesa em um contínuo de maturidade, distinguindo três grandes grupos: defesas maduras, neuróticas e imaturas (Eizirik et al., 2013):
- As defesas maduras são entendidas como mais adaptativas, pois permitem manejar impulsos e afetos preservando o teste de realidade e mantendo sentimentos e ideias acessíveis à consciência – como ocorre no humor, na sublimação, na antecipação e no altruísmo.
- As defesas neuróticas envolvem formações de compromisso que mantêm fora da consciência aspectos da experiência vividos como ameaçadores (por exemplo, através da repressão, formação reativa, racionalização ou intelectualização), reduzindo a angústia, porém à custa de certo grau de rigidez.
- Já as defesas imaturas ou primitivas, como projeção, cisão, negação, atuação (acting out) e somatização, tendem a implicar maior distorção da percepção de si e dos outros e aparecem com maior frequência em funcionamentos de personalidade menos integrados.
Nessa perspectiva, o perfil de defesas predominante em um indivíduo torna-se um importante indicador tanto de vulnerabilidades psicopatológicas quanto de recursos de organização do ego, e, ao longo do desenvolvimento, espera-se um deslocamento progressivo do uso de defesas imaturas para estilos neuróticos e, idealmente, para defesas mais maduras no curso da vida.
Relações, transferência e repetição
A teoria psicodinâmica contemporânea dá grande importância à forma como o inconsciente se manifesta nas relações interpessoais, inclusive na relação terapêutica.
-
No setting psicoterapêutico, o paciente tende a reencenar padrões emocionais e relacionais que vive em outros contextos, dirigindo ao terapeuta expectativas, medos e fantasias moldadas por experiências anteriores — o que chamamos de transferência (Cabaniss et al., 2016).
- Em abordagens psicodinâmicas contemporâneas, trabalhamos esses padrões como oportunidades de compreensão e mudança, e não apenas como “repetições patológicas”. A relação terapêutica torna-se um espaço vivo em que novos modos de se vincular podem ser experimentados (Kealy; Ogrodniczuk, 2019).
Isso que aparece na terapia também está presente no cotidiano:
-
ao escolhermos parceiros “parecidos” com figuras importantes do passado;
-
ao reagirmos a chefes, professores ou amigos como se fossem versões de nossos pais;
-
ao revivermos, sem perceber, expectativas de rejeição, abandono ou crítica.
Na perspectiva psicodinâmica, essas repetições são convites do inconsciente para que algo ainda não elaborado possa ser simbolizado, compreendido e transformado.
O que a psicoterapia psicodinâmica faz com o inconsciente?
A psicoterapia psicodinâmica não “retira” o inconsciente, pois ele é parte estrutural do funcionamento psíquico. O objetivo é dar mais forma, significado e simbolização a esses processos, de modo que deixem de governar a vida do sujeito de forma automática e pouco integrada.
Existem alguns pontos em comum nas diferentes modalidades de psicoterapia psicodinâmica:
-
Escuta atenta e empática: o terapeuta acolhe o que o paciente traz — inclusive silêncios, lapsos, contradições — buscando compreender o sentido emocional subjacente, e não apenas o conteúdo literal.
-
Atenção a padrões: ao longo do tempo, vão se delineando temas que retornam em diferentes contextos (trabalho, família, relacionamentos amorosos, relação com o próprio terapeuta).
-
Interpretações e devoluções: em momentos oportunos, o terapeuta oferece hipóteses sobre ligações possíveis entre situações atuais, afetos e histórias passadas, ajudando o paciente a enxergar conexões antes implícitas.
-
Trabalho com a transferência: aquilo que se repete na vida do paciente tende a emergir também na relação terapêutica, permitindo uma elaboração “ao vivo” de modos de se relacionar, sentir e reagir.
-
Insigth emocional, não só intelectual: o foco é que o paciente não apenas “entenda com a cabeça”, mas possa sentir de outro modo, ampliando sua capacidade de refletir sobre si e de fazer escolhas menos determinadas por automatismos inconscientes.
Esse trabalho pode ser adaptado a diferentes formatos (breve, focal, de maior duração), desde que se mantenha o eixo na compreensão dos significados inconscientes e na qualidade da relação terapêutica (Abrahams; Rohleder, 2021).
Por que isso importa para o cotidiano?
Compreender o lugar do inconsciente no cotidiano não é uma curiosidade teórica: tem implicações muito concretas. A literatura em psicoterapia psicodinâmica mostra que esse tipo de trabalho pode favorecer:
-
maior consciência sobre padrões de escolha e repetição;
-
mais liberdade interna para lidar com afetos complexos (raiva, inveja, tristeza, vergonha);
-
relações mais estáveis e menos tomadas por expectativas inconscientes de abandono, crítica ou invasão;
-
sensação de continuidade e coerência da própria história.
Quando esses processos inconscientes ficam um pouco mais simbolizados e pensáveis, o sujeito ganha margem de escolha: pode perceber que está repetindo um roteiro conhecido e, gradualmente, experimentar novas formas de se posicionar.
Referências Bibliográficas
ABRAHAMS, Deborah; ROHLEDER, Poul. A clinical guide to psychodynamic psychotherapy. Abingdon; New York: Routledge, 2021. Routledge+1
CABANISS, Deborah L.; CHERRY, Sabrina; DOUGLAS, Carolyn J.; SCHWARTZ, Anna R. Psychodynamic psychotherapy: a clinical manual. 2. ed. S.l.: John Wiley & Sons, 2016. Google Livros+1
EIZIRIK, Cláudio Laks; BASSOLS, Ana Margareth Siqueira. O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. Estante Virtual+1
GABBARD, Glen O. Psychodynamic psychiatry in clinical practice. 5. ed. S.l.: American Psychiatric Publishing, 2014. Dokumen+1
JARVIS, Matt. Psychodynamic psychology: classical theory and contemporary research. S.l.: Cengage Learning EMEA, 2003. AbeBooks+1
KEALY, David; OGRODNICZUK, John S. (org.). Contemporary psychodynamic psychotherapy: evolving clinical practice. San Diego, CA: Academic Press, 2019. Elsevier Shop+1
POLNAY, Adam; PUGH, Rhiannon; et al. Cambridge guide to psychodynamic psychotherapy. Cambridge: Cambridge University Press, 2023. blackwells.co.uk+1
SUMMERS, Richard F.; BARBER, Jacques P. Psychodynamic therapy: a guide to evidence-based practice. New York: Guilford Press, 2009.
Se você está buscando psicoterapia presencial em Criciúma/SC, ou online em qualquer lugar do Brasil (ou do mundo), entenda como essa abordagem pode ajudar você a lidar com angústias, sintomas emocionais e dificuldades nos relacionamentos de forma profunda e duradoura.
O que é Psicoterapia Psicodinâmica?
A psicoterapia psicodinâmica é uma forma de tratamento psicológico que parte da ideia de que:
-
muitos dos nossos pensamentos, emoções e comportamentos conscientes
são influenciados por processos inconscientes; -
esses processos têm relação com a forma como fomos cuidados, com nossas
primeiras relações afetivas, experiências de apego, perdas, traumas e conflitos ao longo da vida.
Em vez de focar apenas em “corrigir” comportamentos ou em técnicas rápidas para aliviar sintomas, a psicoterapia psicodinâmica busca:
-
compreender por que você sente e reage como sente;
-
investigar a história emocional por trás dos seus sintomas;
-
ligar o que você vive hoje a padrões que se repetem em sua vida e em seus relacionamentos.
O objetivo não é apenas “entender com a cabeça”, mas favorecer um insight que seja emocionalmente significativo — um tipo de autoconhecimento que, aos poucos, muda a forma como você se percebe, se sente e se relaciona.
Como funciona na prática?
Na prática, a psicoterapia psicodinâmica acontece por meio de sessões semanais, em um ambiente de escuta protegida, ética e sigilosa.
Durante o processo, o psicólogo psicodinâmico:
-
oferece uma escuta qualificada e sem julgamentos;
-
ajuda a nomear emoções difíceis de acessar sozinho;
-
observa padrões que se repetem nas suas falas, nas suas relações e até na própria relação terapêutica;
-
convida você a refletir sobre experiências passadas e atuais, conectando-as aos sintomas e conflitos de hoje.
Ao longo das sessões, o trabalho clínico costuma envolver:
-
Identificar padrões emocionais repetitivos: Por exemplo: sempre se sentir “em segundo plano” nas relações, sempre assumir o papel de cuidador, evitar conflitos a qualquer custo.
-
Compreender conflitos internos: Partes suas que desejam coisas diferentes e entram em choque: “quero me aproximar, mas tenho medo de me machucar”.
-
Explorar sentimentos muitas vezes inconscientes: Como raiva, vergonha, inveja, culpa ou tristeza profunda, que podem aparecer disfarçados em sintomas (ansiedade, irritação, desânimo, dificuldade de se desligar do trabalho, etc.)
-
Refletir sobre as relações: Amorosas, familiares, sociais e profissionais, entendendo por que certas dinâmicas se repetem.
-
Construir um sentido mais coerente sobre si mesmo: Integrando diferentes partes da sua história e da sua personalidade.
É um processo que não é “mágico” nem instantâneo, mas que busca uma mudança mais profunda e estável ao longo do tempo.
Para quem é indicada?
A psicoterapia psicodinâmica pode ser indicada para qualquer pessoa que queira entender melhor sua vida emocional e seus relacionamentos.
Ela costuma ser especialmente útil para quem vive:
-
Ansiedade, angústia e crises emocionais
-
Depressão, desânimo persistente ou sensação de esvaziamento
-
Dificuldades e problemas nos relacionamentos amorosos, familiares ou sociais
-
Baixa autoestima e sentimento de não ser “bom o suficiente”
-
Questões de identidade e sexualidade
-
Lutos e perdas não elaboradas
-
Conflitos recorrentes no trabalho, autossabotagem ou perfeccionismo extremo
-
Transtornos de personalidade e dificuldades mais complexas na forma de se relacionar consigo e com os outros
Também pode ser um espaço importante para quem não tem um “sintoma” claro, mas sente uma insatisfação difusa, uma sensação de estar desconectado de si mesmo ou repetindo histórias que não gostaria mais de viver.
Quais os benefícios?
Entre os principais benefícios relatados por pacientes em psicoterapia psicodinâmica, estão:
-
Autoconhecimento profundo
Entender melhor quem você é, como se construiu emocionalmente e por que certas situações tocam pontos tão sensíveis. -
Melhora nas relações interpessoais
Ao reconhecer seus padrões de vínculo, você pode se posicionar de forma mais clara, escolher melhor suas relações e se proteger de dinâmicas que fazem sofrer. -
Maior capacidade de lidar com emoções
Em vez de sentir que as emoções “tomam conta” de você, torna-se possível reconhecê-las, nomeá-las e encontrar formas mais saudáveis de lidar com elas. -
Mudança de padrões repetitivos de sofrimento
A ideia não é apenas “aprender truques”, mas transformar, na medida do possível, aquilo que se repete sem que você perceba. -
Fortalecimento da autoestima e da autonomia emocional
Ao se entender melhor, você passa a se tratar com menos crítica e mais cuidado, o que impacta decisões, relacionamentos e escolhas de vida.
Diferente de terapias que se concentram apenas no “aqui e agora”, a psicodinâmica reconhece que o presente é atravessado pela nossa história. Compreender essas raízes não significa “culpar o passado”, mas usar essa compreensão como base para construir algo novo.
Gustavo Roedel – Especialista em Psicologia Clínica Psicodinâmica

Se você busca um psicólogo com abordagem psicodinâmica, deixe me apresentar. Sou Gustavo Roedel, psicólogo (CRP 12/26228), e ofereço um espaço de escuta sensível, ética e fundamentada em anos de formação e experiência clínica.
Atuo com adolescentes, adultos idosos e casais, sempre respeitando a singularidade de cada história. Meu trabalho se baseia na escuta psicodinâmica, considerando não apenas os sintomas, mas o sentido que eles têm na vida de cada paciente.