Gustavo Roedel – Psicoterapia Presencial e Online – Criciúma SC

Como a transferência atua na relação terapêutica?

Uma explicação psicodinâmica acessível

Você já teve a sensação de “conhecer” alguém há pouco tempo, mas tratá-lo internamente como se fosse seu pai, sua mãe ou uma figura importante da sua história?

Ou sentiu uma raiva “exagerada” de alguém que fez algo pequeno — como atrasar cinco minutos —, como se aquela pessoa carregasse o peso de muitas outras situações ao longo da vida?

Na psicoterapia psicodinâmica, esse tipo de fenômeno é chamado de transferência: quando sentimentos, expectativas e modos de se relacionar, criados em vínculos anteriores, são reeditados na relação com o terapeuta (Summers & Barber, 2009; Gabbard, 2014).

Este texto faz parte de uma série de conteúdos sobre fundamentos da psicodinâmica pensados para o blog da Clínica Psicodinâmica do psicólogo Gustavo Roedel.

O que é transferência em psicoterapia?

De forma simples, podemos dizer que:

“Transferência é quando o paciente, sem perceber, começa a viver a relação com o terapeuta como se estivesse se relacionando com pessoas importantes do seu passado ou do seu presente.”

Isso não acontece de forma “inventada” ou artificial. Ao contrário: a transferência é uma maneira pela qual a mente organiza e repete padrões emocionais e relacionais que foram fundamentais na história daquela pessoa.

Na perspectiva psicodinâmica contemporânea, a transferência é vista como um fenômeno inevitável e central em qualquer psicoterapia que envolva vínculo profundo: é através dela que se tornam visíveis, “ao vivo”, os padrões com que o paciente se relaciona consigo mesmo e com os outros (Cabaniss et al., 2016; Kealy; Ogrodniczuk, 2019; Abrahams; Rohleder, 2021).

Exemplos práticos de transferência na terapia

Para ficar mais concreto, imagine alguns exemplos:

  • Idealização do terapeuta: O paciente sente que o terapeuta “sabe tudo”, nunca erra, é perfeito. Às vezes fica com medo de decepcioná-lo, como se estivesse diante de uma figura de autoridade idealizada (um pai, mãe, professor, líder religioso, etc.).

  • Medo constante de ser rejeitado ou abandonado: A cada atraso pequeno, remarcação de horário ou férias do terapeuta, o paciente sente um sofrimento intenso, como se estivesse revivendo experiências anteriores de abandono, rejeição ou negligência.

  • Desconfiança ou defesa exagerada: O paciente interpreta perguntas neutras como críticas, sente que está sempre sendo julgado ou testado. Pode estar reeditando vínculos marcados por críticas, humilhações ou invasões na intimidade.

  • Transferência amorosa ou erótica: Pode surgir desejo, encantamento, fantasias românticas em relação ao terapeuta. Mais do que “um crush”, isso costuma falar de necessidades emocionais profundas, de reconhecimento, cuidado, validação — e de como o paciente aprendeu a buscar ou evitar esse tipo de proximidade (Gabbard, 2014; Cabaniss et al., 2016).

Em todos esses casos, o terapeuta não é apenas “ele mesmo”, mas também carrega, simbolicamente, muitos outros personagens da história emocional do paciente.

Por que a transferência é tão importante para a psicoterapia psicodinâmica?

Em vez de ser um “problema”, a transferência é vista como via de acesso privilegiada ao mundo interno da pessoa.

Autores como Summers e Barber (2009), Abrahams e Rohleder (2021) e Polnay (2023) mostram que a psicoterapia psicodinâmica se apoia justamente nesse fenômeno para:

  • tornar visíveis padrões inconscientes de relacionamento;

  • compreender como o paciente espera ser tratado, cuidado, criticado ou abandonado;

  • perceber como ele mesmo se posiciona: se submete, ataca, foge, cuida de todos, se apaga, se defende, etc.;

  • oferecer, na relação terapêutica, uma experiência emocional diferente, em que esses padrões podem ser pensados e, aos poucos, transformados.

Em outras palavras: na transferência, o paciente repete; no trabalho terapêutico com a transferência, ele pode elaborar e ressignificar.

Transferência não é “manipulação” nem “invenção”

Um receio comum de quem está começando terapia é:

“Será que estou exagerando? Estou fantasiando demais em relação ao terapeuta?”

Do ponto de vista psicodinâmico, a questão não é se o que a pessoa sente é “correto” ou “exagerado”, mas o que isso revela sobre sua história emocional.

A transferência não é:

  • o paciente “inventando coisas” sobre o terapeuta;

  • o terapeuta “deixando” que o paciente o veja de qualquer jeito;

  • manipulação ou jogo psicológico.

Ela é um modo de funcionamento psíquico, em grande parte inconsciente, que também aparece fora da terapia — em relações amorosas, no trabalho, na família.

Na terapia, a diferença é que há um profissional preparado para perceber, sustentar e ajudar a pensar essas experiências (Gabbard, 2014; Kealy; Ogrodniczuk, 2019).

Como o terapeuta trabalha com a transferência?

Cada abordagem psicodinâmica tem nuances técnicas, mas há alguns pontos centrais descritos por diferentes autores (Summers; Barber, 2009; Cabaniss et al., 2016; Abrahams; Rohleder, 2021):

1. Escutar e observar o que se repete

O terapeuta presta atenção não só no que o paciente conta, mas em como se relaciona com ele sessão após sessão:

  • idealiza ou desvaloriza rapidamente?

  • teme decepcionar? sente que nunca é suficiente?

  • espera ser atacado, abandonado, ignorado?

  • tenta agradar sempre, com medo de perder o vínculo?

Esses movimentos dizem muito dos modelos internos de relação do paciente.

2. Oferecer um vínculo confiável e estável

Para poder falar de coisas difíceis, é preciso que o paciente sinta segurança emocional.
O terapeuta cuida do setting (horário, sigilo, limites profissionais) e busca manter uma postura:

  • consistente;

  • interessada;

  • não julgadora;

  • ética.

Essa estabilidade permite que transferências intensas aconteçam sem que o paciente seja retraumatizado. Em vez de repetir apenas no real, ele passa a repetir num espaço em que é possível pensar e simbolizar (Gabbard, 2014).

3. Nomear e interpretar, no tempo certo

Com o tempo, o terapeuta pode ajudar a colocar em palavras o que está acontecendo entre os dois. Por exemplo:

  • “Percebo que, quando atraso alguns minutos, você se sente profundamente desvalorizado. Isso te lembra outras situações na sua vida em que se sentiu colocado em segundo plano?”

Essas interpretações não são acusações, nem verdades absolutas. São convites à reflexão, que o paciente pode confirmar, questionar, aprofundar. O objetivo é que ele passe a reconhecer seus padrões e tenha mais liberdade para escolher como se relacionar.

Transferência positiva e negativa

Nem toda transferência é “ruim”. Em geral, falamos em dois grandes tipos (embora, na prática, eles se misturem):

  • Transferência positiva: sentimentos de confiança, admiração, alívio, gratidão. Eles são importantes para sustentar o vínculo e a motivação para o tratamento.

  • Transferência negativa: sentimentos de raiva, frustração, desconfiança, decepção. Embora mais desconfortáveis, muitas vezes são os mais transformadores, porque dão acesso a dores e conflitos profundos (Summers; Barber, 2009).

O papel do terapeuta não é “evitar” a transferência negativa, mas ajudar o paciente a atravessá-la sem romper o vínculo, quando possível. Essa experiência de conflito que pode ser conversado, pensado e elaborado é muito diferente de experiências passadas em que a pessoa só pôde fugir, se calar ou explodir.

E a contratransferência?

Embora o foco deste texto seja a transferência, é importante citar que o terapeuta também é afetado pela relação.

O conjunto de sentimentos, fantasias e reações que o paciente desperta no terapeuta é chamado de contratransferência. Hoje, ela não é vista apenas como “obstáculo”, mas também como ferramenta de compreensão clínica, desde que o terapeuta tenha espaço de supervisão e análise pessoal para refletir sobre isso (Gabbard, 2014; Abrahams & Rohleder, 2021).

O que tudo isso significa para quem pensa em começar terapia?

Se você está buscando psicoterapia psicodinâmica ou se já está em tratamento, saber um pouco sobre transferência pode ajudar a:

  • normalizar sentimentos intensos em relação ao terapeuta (positivos ou negativos);

  • perceber que certas reações “não são só sobre ele/ela”, mas também sobre sua história;

  • usar a relação terapêutica como um laboratório vivo, em que velhos padrões vêm à tona e podem ser trabalhados;

  • entender que, em psicodinâmica, não se trata apenas de “falar sobre problemas”, mas de observar como você se relaciona — com o terapeuta, consigo mesmo e com as pessoas fora do consultório.

Na perspectiva psicodinâmica contemporânea, é justamente nesse espaço relacional — marcado pela transferência, mas sustentado por um vínculo ético e confiável — que se tornam possíveis mudanças profundas e duradouras (Summers; Barber, 2009; Kealy; Ogrodniczuk, 2019; Polnay, 2023).

Referências Bibliográficas

ABRAHAMS, Deborah; ROHLEDER, Poul. A clinical guide to psychodynamic psychotherapy. Abingdon; New York: Routledge, 2021. Routledge+1

CABANISS, Deborah L.; CHERRY, Sabrina; DOUGLAS, Carolyn J.; SCHWARTZ, Anna R. Psychodynamic psychotherapy: a clinical manual. 2. ed. S.l.: John Wiley & Sons, 2016. Google Livros+1

EIZIRIK, Cláudio Laks; BASSOLS, Ana Margareth Siqueira. O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. Estante Virtual+1

GABBARD, Glen O. Psychodynamic psychiatry in clinical practice. 5. ed. S.l.: American Psychiatric Publishing, 2014. Dokumen+1

JARVIS, Matt. Psychodynamic psychology: classical theory and contemporary research. S.l.: Cengage Learning EMEA, 2003. AbeBooks+1

KEALY, David; OGRODNICZUK, John S. (org.). Contemporary psychodynamic psychotherapy: evolving clinical practice. San Diego, CA: Academic Press, 2019. Elsevier Shop+1

POLNAY, Adam; PUGH, Rhiannon; et al. Cambridge guide to psychodynamic psychotherapy. Cambridge: Cambridge University Press, 2023. blackwells.co.uk+1

SUMMERS, Richard F.; BARBER, Jacques P. Psychodynamic therapy: a guide to evidence-based practice. New York: Guilford Press, 2009.


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Gustavo Roedel – Especialista em Psicologia Clínica Psicodinâmica

Foto de Gustavo Roedel. Psicólogo Clínico e Neuropsicólogo em Criciúma/SC. Atendimento Presencial e Online

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Quando a psicoterapia é indicada?

A transferência costuma se manifestar quando há:

  • Repetição de padrões emocionais e relacionais

  • Medo de abandono, rejeição ou crítica

  • Dificuldade em confiar em si ou nos outros

  • Reações emocionais desproporcionais

  • Angústia sem explicação aparente

  • Desejo de compreender melhor a si mesmo

Se você se reconhece nesses pontos, a psicoterapia psicodinâmica pode te ajudar a romper com repetições inconscientes e viver com mais liberdade emocional.

 

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